A questão era tabu. Já não é.
Desde o fim dos acordos de Bretton Woods em 1971, o mundo assenta sobre um único pilar monetário: o dólar americano. Uma moeda nacional utilizada como moeda mundial — anomalia histórica que permitiu uma expansão sem precedentes do comércio mundial, da financeirização e do endividamento global.
Hoje, as fissuras aparecem por toda a parte. Dívida americana fora de controlo, fragmentação geopolítica, sanções extraterritoriais, ascensão dos BRICS, crises energéticas, inflação estrutural, instabilidade bancária, perturbação climática. Cada vez mais actores colocam a questão antes impensável: e se o sistema dólar viesse a vacilar?
O que se segue não é uma previsão. É um exercício de lucidez. Se este pilar caísse amanhã, por quê poderia ser substituído — e o que nos diria essa escolha sobre a civilização que queremos construir?
O dólar: um privilégio colossal, uma contradição estrutural
O sistema actual confere aos Estados Unidos uma vantagem que nenhum outro Estado alguma vez teve: financiar os seus défices na sua própria moeda, importar recursos reais em troca de dívida, impor sanções através do sistema financeiro mundial, e influenciar a liquidez planetária através da Reserva Federal.
Mas este privilégio contém uma contradição conhecida há muito tempo: o dilema de Triffin. Para fornecer dólares ao resto do mundo, os Estados Unidos devem continuamente aprofundar os seus défices. Mas quanto mais o fazem, mais a confiança na moeda acaba por se erodir. O sistema precisa de um excesso permanente de dívida para sobreviver.
Esta lógica colide frontalmente com os limites ecológicos, a escassez energética, as tensões geopolíticas e a instabilidade financeira crónica. O sistema dólar funciona como uma gigantesca máquina termodinâmica de expansão perpétua. Mas nenhuma estrutura física pode crescer indefinidamente num mundo finito.
Opção 1 — Bitcoin: a escassez como ideologia
O Bitcoin é frequentemente apresentado como o sucessor natural do dólar: oferta limitada, ausência de banco central, resistência à censura, neutralidade política. Num mundo marcado pela desconfiança em relação aos Estados, aparece como um refúgio monetário descentralizado.
Mas o Bitcoin reproduz os defeitos do ouro: rigidez monetária, lógica extractiva, assimetria patrimonial. Uma moeda puramente deflacionária favorece mecanicamente a concentração de riqueza, o entesouramento e a especulação. Sobretudo, não contém qualquer mecanismo de regulação ecológica, redistribuição ou orientação económica colectiva. Dificilmente uma arquitectura monetária mundial completa.
Opção 2 — BRICS: a multipolaridade sem o sistema
Os BRICS tentam há vários anos reduzir a sua dependência do dólar: comércio bilateral em moedas nacionais, sistemas de pagamento alternativos, acumulação de ouro, projectos de moedas comuns. Esta dinâmica reflecte uma realidade profunda — o mundo torna-se multipolar.
Mas os BRICS ainda não propõem um sistema monetário coerente. Agrupam interesses geopolíticos divergentes, modelos económicos incompatíveis e rivalidades estratégicas importantes. Substituir uma hegemonia por várias potências rivais não resolve os desequilíbrios fundamentais do sistema mundial.
Opção 3 — MMT: salvar o sistema actual através da criação monetária
A Teoria Monetária Moderna afirma que um Estado soberano que emite a sua própria moeda não pode falir nessa moeda. O verdadeiro limite não é financeiro, mas inflacionário e produtivo. O Estado pode portanto financiar maciçamente infra-estruturas, emprego e transição ecológica.
A MMT tem o mérito de desmontar vários mitos contemporâneos. Mas coloca uma questão fundamental insuficientemente tratada: o que acontece com a criação monetária ilimitada num mundo ecologicamente finito? A MMT corrige alguns becos sem saída do neoliberalismo. Não resolve a questão termodinâmica.
Opção 4 — NEMO IMS: mudar o que a moeda recompensa
O NEMO IMS parte de uma constatação simples: o problema não é apenas a moeda. O problema é a orientação civilizacional do sistema monetário. Hoje, a moeda mundial recompensa principalmente a extracção, o crescimento quantitativo, a financeirização e a aceleração entrópica.
O NEMO IMS propõe em vez disso uma moeda concebida para favorecer a robustez sistémica, a sustentabilidade ecológica e a resiliência social. Ao contrário do dólar, nenhuma divisa nacional domina. Ao contrário do Bitcoin, a moeda não é um activo especulativo escasso. Ao contrário dos BRICS, o sistema não assenta numa rivalidade imperial. Ao contrário da MMT, a criação monetária está explicitamente ligada às restrições físicas e ecossistémicas.
A ideia central: uma moeda não deveria medir apenas o valor de mercado. Deveria reflectir a compatibilidade das actividades humanas com as condições de estabilidade do mundo vivo.
A verdadeira aposta: que civilização queremos financiar?
A verdadeira questão não é que moeda usar, nem que potência dominará amanhã. É: que tipo de civilização encoraja o nosso sistema monetário?
Pois toda a moeda é uma arquitectura comportamental. Recompensa certos comportamentos e penaliza outros. O sistema dólar financiou a globalização extractiva do século XX. O próximo sistema monetário determinará a possibilidade de uma civilização sustentável.
Pode uma civilização sobreviver duradouramente com um sistema monetário que recompensa estruturalmente a aceleração da entropia?
Talvez seja aí que se decidirá o verdadeiro debate do século XXI.
Jean-Christophe Duval