Em 2024, a dívida mundial total ultrapassou o limiar dos 315 biliões de dólares. Trezentos e quinze biliões. Um número tão descomunal que escapa a qualquer representação humana sensata. E contudo, esta montanha de dívidas não é o sintoma de uma gestão imprudente que se poderia corrigir com um pouco mais de rigor orçamental. É a consequência lógica, mecânica e inevitável de um sistema concebido para crescer ou morrer.
O que chamamos pudicamente de "sistema financeiro mundial" é, na realidade, uma máquina de extração. Não funciona apesar da destruição dos ecossistemas — funciona graças a ela. Compreender este mecanismo é entender por que todas as políticas climáticas incrementais estão condenadas ao fracasso enquanto persistir a arquitetura monetária que as sustenta.
I. O dinheiro nasce de um empréstimo. E morre com o seu reembolso.
A quase totalidade do dinheiro em circulação não foi criada por um Estado, um banco central ou qualquer autoridade soberana. Foi criada por bancos comerciais privados, no momento preciso em que alguém assinou um contrato de empréstimo.
Este processo tem um nome: a criação monetária ex nihilo — do nada. Quando um banco lhe concede um empréstimo de 200 000 euros para comprar um apartamento, não abre um cofre e não retira um maço de notas pré-existentes. Regista um crédito no seu ativo e um depósito equivalente no passivo da sua conta. O dinheiro acabou de ser criado, através de um simples lançamento contabilístico.
O Banco de Inglaterra formulou-o sem ambiguidade numa nota de investigação publicada em 2014: "Sempre que um banco concede um empréstimo, cria simultaneamente um depósito correspondente na conta bancária do mutuário, criando assim novo dinheiro."
O dinheiro é efémero por natureza. O dinheiro cria-se com o lápis do banqueiro e destrói-se com a sua borracha. Nasce com o empréstimo e desaparece quando o capital é reembolsado. O crescimento não é uma escolha neste sistema. É uma condição de sobrevivência.
II. As três maldições: quando a mecânica se torna destino
Esta arquitetura monetária não é neutra. Segrega três patologias sistémicas que chamo as maldições monetárias.
A primeira maldição: a extração mecânica
Cada euro de dívida recentemente criada é uma promessa de extração futura. Uma letra sacada sobre a biosfera. Para honrar os 315 biliões de dívidas mundiais, as nações, as empresas e as famílias são estruturalmente compelidas a maximizar a sua extração de recursos naturais. A Terra é o pagador em primeiro recurso.
Os bancos não financiam o futuro que queremos. Financiam o futuro para o qual podem calcular um rendimento.
A segunda maldição: o dinheiro bancário e o impossível desacoplamento
O crescimento verde é um oximoro. A cadeia é implacável: dívida → obrigação de rentabilidade → extração. Não existe ato económico neutro no sistema atual. Nem mesmo este ato nobre que procura compreendê-lo.
Como diz o epígrafe que abre L'Économie de l'Équilibre: "E Gaia disse aos homens: é vão curar-me com uma moeda que extraís do mais fundo das minhas feridas."
O desacoplamento não é apenas difícil de realizar. É contraditório com os próprios fundamentos do sistema.
A terceira maldição: o nó górdio
Existem dois tipos de dívidas que governam a nossa época: a dívida financeira e a dívida planetária. Estas duas dívidas formam um nó górdio: solver uma apenas agrava a outra. O nó aperta-se a cada tentativa de o desatar.
Apenas um sistema monetário cuja criação não esteja apoiada na dívida pode cortar este nó — não desatá-lo, mas torná-lo caduco.
III. A geometria da impotência: juros compostos e limites planetários
Os juros compostos descrevem um crescimento geométrico sem tecto. Um capital investido a 5% duplica em 14 anos, multiplica por 11 em 50 anos, por 131 em 100 anos.
A imagem que me parece mais justa para descrever este engrenagem é a de Sísifo a cavar buracos. Cada novo buraco cavado serve para preencher o anterior. Mas a cada palada, um punhado de terra é retirado: é o juro. E a terra retirada cada vez é a biosfera.
"Obrigamo-nos a cavar buracos cada vez mais fundos na natureza para preencher buracos cada vez maiores nas nossas folhas de contabilidade."
IV. A pré-validação fóssil: um crime contabilístico
Desde a assinatura do Acordo de Paris em 2015, os sessenta maiores bancos mundiais injetaram mais de 3,8 biliões de dólares nos setores do carvão, petróleo e gás. Encontramo-nos numa situação de absurdidade trágica: se as políticas climáticas funcionarem, desencadeiam uma crise financeira. Se falharem, desencadeiam uma crise climática.
V. Sair do labirinto: a reforma sistémica
O que é necessário é uma reforma da arquitetura monetária ela própria. O projeto NEMO IMS ancora a criação monetária na regeneração ecossistémica em vez da dívida. O dinheiro é criado sem contrapartida de dívida para financiar diretamente atividades certificadas como regenerativas — reflorestação, descontaminação, restauro de solos, transição energética, saúde, educação.
VI. O dinheiro como linguagem política
Não existe reforma ecológica séria que não seja, no fundo, uma reforma monetária. O dinheiro é a linguagem invisível do poder. O que está em jogo é a questão de saber quem tem o direito de validar o futuro.
Conclusão: o equilíbrio não é uma utopia
Enquanto o sistema atual não mudar, todos os pactos verdes, todas as COP e todos os objetivos de desenvolvimento sustentável continuarão a erosar-se contra a mesma realidade: tal como é ilusório reparar porcelana com um martelo, não se financia a regeneração com ferramentas concebidas para a extração.
O equilíbrio planetário não é uma utopia. É a única trajetória viável.
Jean-Christophe Duval