A acidificação dos oceanos é uma das manifestações mais discretas e mais graves da crise ecológica. Menos espetacular do que incêndios, secas ou furacões, ela transforma lentamente a química do maior sistema vivo do planeta.
Quando o oceano absorve parte do dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas, esse CO₂ reage com a água e modifica seu equilíbrio químico. O pH diminui, a disponibilidade de carbonatos se reduz e numerosos organismos marinhos encontram mais dificuldade para formar conchas, esqueletos ou estruturas calcárias.
Um limite planetário
Os limites planetários identificam os grandes processos biofísicos que mantêm a Terra em um estado relativamente estável e habitável. Clima, biodiversidade, água doce, uso dos solos, ciclos do nitrogênio e do fósforo, poluição química, aerossóis, ozônio estratosférico e acidificação dos oceanos fazem parte desses processos.
Quando um limite é ultrapassado, não entramos automaticamente em colapso imediato. Mas aumentamos o risco de mudanças irreversíveis, efeitos em cascata e perda de estabilidade sistêmica.
A acidificação dos oceanos mostra que a crise não se limita à atmosfera. O carbono emitido pela economia fóssil penetra nos mares e modifica as condições de vida em profundidade.
Por que os oceanos importam
Os oceanos regulam o clima, absorvem calor, participam do ciclo do carbono, abrigam uma parte imensa da biodiversidade e sustentam cadeias alimentares das quais dependem centenas de milhões de pessoas.
Se sua química muda, não se trata apenas de um problema para corais ou moluscos. É toda a arquitetura do vivo marinho que pode ser afetada: plâncton, peixes, recifes, cadeias tróficas, pesca, proteção costeira e ciclos biogeoquímicos.
O falso conforto da lentidão
A acidificação é perigosa porque parece lenta. Não produz sempre imagens imediatas de catástrofe. Mas os sistemas vivos podem resistir durante algum tempo e depois mudar de estado. A lentidão aparente pode esconder uma acumulação de tensões.
Como muitas crises ecológicas, ela revela a diferença entre o tempo econômico e o tempo planetário. A economia busca retornos rápidos; os oceanos acumulam lentamente os efeitos das nossas emissões.
Sete limites em pressão
O fato de um sétimo limite planetário estar sob pressão não deve ser lido isoladamente. Os limites interagem. Clima, biodiversidade, acidificação, uso dos solos, água e ciclos químicos reforçam-se mutuamente.
Uma civilização não pode tratar cada limite como um problema técnico separado. Deve reconhecer que sua forma de produzir, financiar, transportar, consumir e contabilizar pressiona simultaneamente vários sistemas vitais.
O papel da economia monetária
A acidificação dos oceanos parece distante da moeda. Mas ela é consequência de uma economia que transforma energia fóssil, materiais, transporte e consumo em fluxos monetários valorizados. Enquanto a rentabilidade depender da expansão desses fluxos, os oceanos continuarão absorvendo parte do custo invisível.
A contabilidade financeira registra receitas, lucros e crescimento. A química oceânica registra outra coisa: o custo real da combustão fóssil e da expansão material.
O que seria uma resposta estrutural
Responder à acidificação exige reduzir emissões, proteger ecossistemas marinhos, limitar pressões locais, restaurar zonas costeiras e reorganizar sistemas produtivos. Mas exige também modificar os incentivos monetários que tornam lucrativas as atividades causadoras do problema.
NEMO IMS propõe precisamente essa mudança: criar moeda para atividades regenerativas e destruir moeda de maneira ponderada quando ela circula em atividades degenerativas. O objetivo é fazer com que a moeda deixe de acompanhar passivamente a destruição e comece a orientar os fluxos para a robustez do vivo.
A acidificação dos oceanos é um sinal silencioso. Mas sua mensagem é brutal: o planeta registra em sua química aquilo que a economia se recusa a contabilizar.
Jean-Christophe Duval