És o último ser humano na Terra. À tua volta: cofres cheios de lingotes de ouro, carteiras bolsistas de dez dígitos, NFTs raríssimos armazenados em servidores que ainda zumbem. És, segundo todos os critérios que a nossa civilização construiu pacientemente ao longo de três séculos, o homem mais rico da história.
Mas se a dívida é uma promessa de extração futura, a tua fortuna é a prova da extração passada. Os solos estão mortos, os rios secos, os polinizadores desapareceram, a cadeia alimentar colapsou em silêncio enquanto os mercados batiam recordes. Quanto vale o teu ouro agora?
Não é uma metáfora apocalíptica para assustar — é um teste lógico. E revela algo fundamental que o nosso sistema económico recusa obstinadamente integrar: invertemos a hierarquia dos valores.
Destruímos o «amanhã» em nome do «hoje» numa busca exuberante de gratificação imediata. Glorificamos o ouro — símbolo clichê mas ainda atual — sem compreender que o que fundamenta o seu valor reside na boa saúde do mundo à sua volta.
O ouro ou a vida: uma questão que nunca deveria ter sido colocada
O axioma é simples, quase óbvio uma vez enunciado: um planeta em boa saúde ecológica alimentará sempre a humanidade, mesmo que seja pobre. Um planeta destruído não alimentará ninguém, mesmo que seja rico.
Ser milionário num mundo destruído não faz sentido.
E no entanto, toda a nossa arquitetura económica funciona ao contrário desta evidência. Por uma razão simples: ainda não tomámos consciência da impossível dissociação, e os economistas ainda não integraram os custos ecológicos e sociais nos seus raciocínios.
A nossa moeda é criada através da dívida — ou seja, através da promessa de extração futura. Para reembolsar, é preciso produzir. Para produzir, é preciso extrair. Para extrair, é preciso destruir. O sistema não tem ponto morto. Só tem marcha à frente. E à frente está o muro.
Entretanto, o que realmente nos mantém vivos — a fertilidade dos solos, a qualidade do ar, a estabilidade do clima, a biodiversidade funcional — não tem qualquer valor nas nossas contabilidades.
Dramaticamente, o que não se conta não conta.
Estes bens não têm preço porque não têm proprietário. E o que não tem proprietário não existe na gramática do mercado.
É o que chamo a inversão do valor: o deslocamento ético pelo qual uma civilização chega a desprezar o que a faz viver e a sacralizar o que a destrói.
O erro está na nossa cabeça — mas tem uma explicação
Por que somos tão obstinadamente incapazes de corrigir esta trajetória? A resposta não está na nossa malevolência coletiva. Está na nossa neurobiologia.
O neurocientista Sébastien Bohler, em O Bug Humano, documentou-o com precisão: no centro do nosso cérebro reina o estriado, uma estrutura arcaica herdada dos nossos antepassados vertebrados de há centenas de milhões de anos. O estriado gere o circuito da recompensa. Liberta dopamina. E foi selecionado pela evolução num contexto de escassez permanente.
Nesse mundo de escassez, cinco comportamentos eram recompensados: acumular alimentos, multiplicar parceiros, subir na hierarquia social, economizar esforço e absorver informações novas. Estes cinco instintos asseguraram a sobrevivência da espécie durante centenas de milhares de anos.
O problema? O estriado não tem mecanismo de saciedade. Não sabe parar. E os seus neurónios dopaminérgicos não se ativam perante o que era esperado — apenas perante o que supera as expectativas. Para continuar a sentir prazer, o cérebro humano exige doses crescentes de estimulação.
Transpõe este mecanismo para um mundo de abundância industrial e obténs: moda rápida, algoritmos de recomendação, pornografia de massas, sobrealimentação e financeirização de tudo. O capitalismo ligou o nosso estriado arcaico a uma máquina de estimulação infinita. Produzir, consumir, obter gratificação, reconhecimento, sedução.
Se o nosso cérebro nos permitiu sair a ganhar na roleta da evolução, esse mesmo software mental faz-nos hoje saquear a biosfera por doses de dopamina.
A realidade física do saque
A realidade física deste saque raramente é tornada visível. Deixemos os números falar.
Um par de calças de ganga. 7.500 litros de água para fabricar. A cultura do algodão, que representa 3% das terras agrícolas mundiais, absorve 16% de todos os inseticidas utilizados no planeta. Uma peça de roupa que talvez uses dez vezes antes de a descartar.
Um smartphone. 200 gramas no bolso. 44 quilos de matérias-primas extraídas, refinadas, transportadas — terras raras, cobalto, lítio arrancados de zonas de guerra ou de desastres ecológicos. Mais de 80% da sua pegada de carbono total já foi consumida antes de o ligar pela primeira vez.
A agroindústria mundial. Triplicou a sua produção desde 1970. E destruiu um terço da superfície florestal do planeta para o conseguir. A perda de fertilidade dos solos resultante é avaliada em 10% do PIB mundial anual — um custo que ninguém paga, ninguém regista, e que a natureza absorve em silêncio até ao momento em que já não pode.
O crescimento económico assemelha-se a um edifício ao qual se acrescentam andares sem parar, sem compreender que cada novo andar exige retirar tijolos das fundações. Enquanto a construção sobe, os acionistas aplaudem. Até ao dia em que tudo desmorona.
A nossa única hipótese: desprogramar as nossas lógicas de gratificação face ao valor.
Estamos condenados pelo nosso próprio cérebro?
Não. E o próprio Darwin nos dá a chave, num livro que poucos leram: A Descendência do Homem (1871).
Darwin demonstra aí que a seleção natural não favoreceu apenas as garras e os dentes. Selecionou os instintos sociais — a simpatia, o altruísmo, a coesão do grupo — porque a sobrevivência coletiva superava a individual face às forças da natureza.
O antropólogo Patrick Tort teoriza esta viragem sob o nome de efeito reversivo da evolução. A seleção natural, ao selecionar os instintos sociais, acaba por selecionar a civilização — ou seja, um sistema de valores que se opõe frontalmente à seleção eliminatória bruta. A civilização protege os fracos. Cuida. Constrói leis. Estabelece limites.
A metáfora de Tort é a da fita de Möbius: a cultura é a prolongação contínua da natureza que, num certo ponto do seu desenvolvimento, se inverte e apresenta uma face autónoma, regida por outras regras. Estamos nesse ponto.
E Tort introduz outra noção crucial emprestada da biologia: a hipertelia. Em biologia, um órgão hipertélico é aquele que se desenvolveu para além da sua utilidade adaptativa ao ponto de ameaçar a sobrevivência da espécie — como as enormes hastes do megalocero, que o impediam de fugir pelas florestas.
O nosso crescimento material é hipertélico. Ultrapassou a sua utilidade. Tornou-se um perigo para a própria espécie que o produziu. A inteligência dos limites é saber reconhecer a hipertelia antes que ela te mate.
O mérito ao contrário
O nosso sistema também tem um problema moral. Construímos uma civilização sobre uma ética do mérito produtivista: a dignidade ganha-se pelo esforço transformador e extrativo. «Ganharás o pão com o suor do teu rosto.» Quem produz merece. Quem se abstém é preguiçoso.
Resultado: quem arrasa uma floresta para vender madeira é celebrado pelo seu dinamismo económico. Quem restaura um solo ou despolui um rio faz voluntariado, porque o mercado não sabe remunerar a reparação.
A crise da Covid revelou brevemente esta aberração. A sociedade continuou a funcionar sem a maioria dos bullshit jobs bem pagos. Revelou-se dependente daqueles que o mercado mais desprezava: enfermeiros, cantoneiros, trabalhadores agrícolas.
A inversão do valor exige reinventar o mérito — já não medido pelo que se extrai, mas pelo que se regenera. Não pelo desempenho, mas pela robustez. Não pela maximização individualista, mas pela resiliência coletiva.
Reeducar o estriado?
Eis a boa notícia que as neurociências nos oferecem: o circuito da recompensa pode ser reorientado.
Os estudos de imagiologia cerebral mostram que a entrega, a partilha e o apoio mútuo ativam os mesmos circuitos dopaminérgicos que a acumulação de riqueza. O altruísmo proporciona prazer — biologicamente, não metaforicamente.
Sébastien Bohler identifica o córtex cingulado anterior como alavanca-chave. Esta zona cerebral deteta as incoerências entre as nossas crenças e a realidade. Quando o fosso se torna insuportável — como face à iminência de um colapso ecológico —, desencadeia uma busca de sentido, uma reorganização cognitiva.
Tornar o estatuto social um vetor de sobriedade em vez de ostentação. O nosso estriado procura o reconhecimento — se a norma cultural valoriza a sobriedade e estigmatiza a acumulação ostentatória, o estriado trabalhará no bom sentido.
Redirecionar a acumulação para o intangível: saberes, artes, relações, competências — formas de riqueza que satisfazem a nossa necessidade de novidade sem consumir recursos físicos.
Praticar a desaceleração sensorial: saborear lentamente uma única uva ativa o circuito da recompensa mais intensamente do que engolir uma taça inteira sem atenção. Menos matéria, mais prazer. O estriado pode ser enganado.
Por outras palavras, o Homo œconomicus terá de aprender a seduzir de outra forma que não com um carro grande.
O que NEMO IMS muda na equação
A tese de fundo aqui é monetária. Enquanto a moeda for criada pela dívida — ou seja, pela obrigação de extração futura —, nenhuma filosofia do valor poderá inscrever-se realmente nos comportamentos económicos. Podes querer regenerar os solos, mas se a tua sobrevivência financeira depende de um sistema que exige que extraias para reembolsar, a boa vontade continua a ser uma postura.
O sistema NEMO IMS parte de outra premissa: ancorar a criação monetária na regeneração do vivo em vez de na dívida. A moeda já não é a contrapartida de uma promessa de extração — torna-se a contrapartida de um ato de restauração dos bens comuns biológicos.
Não é poesia. É um mecanismo. Quando as regras do jogo mudam, os comportamentos mudam. Quando regenerar se torna mais rentável do que extrair, o estriado segue.
A inversão do valor não é apenas filosófica. Tem de estar institucionalmente codificada na arquitetura monetária. Caso contrário, fica a ser um desejo.
O Homo Philosophicus
O ouro é uma relíquia do arcaísmo extrativista. Um metal raro, fetichizado durante séculos, símbolo de uma riqueza que não se come, não respira e não cresce.
Um planeta vivo, por sua vez, alimenta. Hidrata. Regula. Repara. E fá-lo sem precisar de uma conta bancária.
A verdadeira civilização — no sentido de Patrick Tort, como culminação racional da evolução — é aquela que tem a inteligência dos seus próprios limites. Aquela que sabe reconhecer a hipertelia antes que seja letal. Aquela que substitui a competição predatória pela cooperação para a preservação dos bens comuns planetários.
O Homo œconomicus que hiperproduz para ter sucesso e hiperconsome para mostrar aos outros que teve sucesso é um modelo de vida do qual é preciso libertar-se.
Esta mudança não é ascética. Não é punitiva. É lógica.
Temos o cérebro para o conseguir. Temos as instituições a reinventar. Temos as ferramentas monetárias a refundar. O que nos resta é deixar de morrer pelo ouro num mundo que arde — e começar a viver pelo que vive.
O Homo Oeconomicus já teve o seu tempo. Bem-vindo, Homo Philosophicus.
Jean-Christophe Duval