Depois de dois séculos de crises monetárias internacionais, torna-se difícil continuar acreditando que o problema é apenas técnico. O padrão-ouro caiu. Bretton Woods caiu. A hegemonia do dólar permanece, mas ao preço de desequilíbrios crescentes, dependência geopolítica, financeirização e pressão material sobre o planeta.
O que está em causa não é apenas a moeda dominante. É a lógica pela qual o mundo cria, distribui, conserva e destrói liquidez internacional.
O impasse do sistema atual
No sistema atual, a liquidez internacional depende sobretudo de ativos financeiros denominados em moedas nacionais dominantes, em primeiro lugar o dólar. O mundo precisa de dólares para comerciar, investir, reembolsar dívidas e acumular reservas.
Essa dependência cria uma hierarquia. Alguns países emitem a moeda que os outros precisam obter. Outros são obrigados a exportar, atrair capitais ou contrair dívidas em moeda estrangeira para permanecer solventes.
Assim, a arquitetura monetária mundial alimenta uma pressão permanente sobre os fluxos reais. Para ganhar divisas, os países precisam produzir, extrair, vender, transportar e competir. A solvência externa torna-se uma forma de obrigação ecológica disfarçada.
Por que uma simples multipolaridade não basta
Muitos imaginam que bastaria substituir a hegemonia do dólar por um sistema multipolar: mais euro, mais yuan, mais moedas regionais, mais acordos bilaterais. Essa evolução pode reduzir certas dependências geopolíticas, mas não resolve o problema fundamental.
Se várias moedas nacionais se tornam moedas de reserva, o mundo continua preso a uma competição entre emissores nacionais. A liquidez internacional continua dependendo de ativos financeiros, dívidas, superávits, déficits e relações de poder.
A questão decisiva não é saber qual país deve fornecer a moeda do mundo. É saber se a moeda do mundo deve continuar sendo a dívida ou o privilégio de algum país.
O limite dos DTS clássicos
Os Direitos Especiais de Saque do FMI constituem uma tentativa interessante de criar um ativo internacional que não seja simplesmente uma moeda nacional. Mas, na prática, os DTS permanecem marginais. São alocados aos Estados segundo regras institucionais, mas não transformam a lógica profunda da criação monetária mundial.
Não dizem em si mesmos o que deve ser financiado, nem como a moeda deve circular, nem de que maneira os impactos ecológicos e sociais devem influenciar a destruição ou a absorção monetária.
O problema não é apenas criar uma unidade internacional. É dar a essa unidade uma finalidade civilizacional.
A proposta NEMO IMS
NEMO IMS — NEgentropic MOney International Monetary System — parte de uma inversão simples: a moeda internacional deve ser criada em contrapartida daquilo que regenera, protege e fortalece as condições de vida, e deve ser degradada quando acompanha atividades que degradam o mundo.
Em vez de nascer principalmente de déficits, dívidas ou privilégios de reserva, a liquidez internacional nasceria de atividades regenerativas reconhecidas: restauração de ecossistemas, proteção da água, adaptação climática, cuidado, saúde, educação, infraestruturas de baixo impacto, preservação dos comuns e robustez social.
Essa moeda internacional — os NEMO Green DTS — seria emitida segundo critérios extra-financeiros, validados por uma governança mundial, e convertida pelas autoridades monetárias nacionais para remunerar atividades consideradas indispensáveis à habitabilidade do planeta.
Criação monetária sem dívida
O ponto central é a criação monetária sem dívida. Financiar atividades regenerativas pela dívida significa exigir que elas gerem fluxos futuros suficientes para reembolsar capital e juros. Ora, muitas funções essenciais não são rentáveis no sentido clássico. Elas preservam, evitam, reparam, cuidam e estabilizam.
Se essas atividades devem depender da fiscalidade ou da dívida, permanecerão sempre subfinanciadas. A fiscalidade depende da atividade mercantil; a dívida depende de receitas futuras; ambas ficam presas à máquina do crescimento.
NEMO IMS propõe libertar o financiamento do essencial dessa armadilha. A moeda seria criada porque uma atividade aumenta a robustez do sistema vivo, não porque promete uma rentabilidade financeira.
Destruição monetária e fonte ponderada
Criar moeda sem dívida exige também pensar a sua destruição. Uma moeda que nasce sem obrigação de reembolso precisa de mecanismos de refluxo, caso contrário a criação pode tornar-se inflacionária ou politicamente capturada.
É por isso que NEMO IMS associa a emissão a uma depreciação monetária nas transações. A moeda circula na economia e uma fração é destruída quando acompanha atividades mercantis, com uma taxa modulada segundo o impacto ecológico e social.
As atividades de baixo impacto suportam uma taxa baixa. As atividades degenerativas suportam taxas mais elevadas. Assim, a destruição monetária torna-se um instrumento de orientação dos fluxos.
Uma moeda viva, não uma massa estática
NEMO IMS rompe com a ideia de que a moeda deve ser apenas acumulada, conservada e transmitida como um estoque. A moeda torna-se um fluxo vivo: aparece onde o mundo se regenera, circula para remunerar atividades úteis e desaparece progressivamente quando se liga a atividades destrutivas.
Essa lógica aproxima a moeda de um metabolismo: criação na regeneração, circulação na economia, destruição em função do impacto.
Governança e critérios
Um sistema assim exigiria instituições robustas. Não se trata de deixar uma autoridade central criar moeda arbitrariamente. É preciso definir critérios, medir impactos, auditar projetos, prevenir fraudes, garantir transparência e equilibrar representação científica, democrática e territorial.
A questão política é decisiva. A moeda regenerativa só pode ser legítima se for governada por regras claras e por controles capazes de impedir a captura por Estados, empresas ou interesses financeiros.
O futuro do SMI
O futuro do sistema monetário internacional não deve consistir apenas em escolher entre dólar, euro, yuan, ouro ou criptomoedas. Deve consistir em perguntar que arquitetura monetária é compatível com os limites planetários.
Um mundo finito não pode depender indefinidamente de um sistema que transforma a liquidez em corrida por exportações, endividamento e extração. Precisa de uma moeda internacional que financie o essencial insolvente e desincentive as atividades degenerativas.
NEMO IMS não é uma simples reforma técnica. É uma mudança de imaginação monetária: fazer da moeda não mais o espelho do poder acumulado, mas o instrumento de uma robustez ecológica e social mundial.
Jean-Christophe Duval