1. A ilusão do alcance
Há vários anos, os dirigentes europeus repetem a mesma promessa:
- investir mais;
- produzir mais;
- inovar mais;
- construir mais fábricas;
- desenvolver mais IA.
O diagnóstico é simples:
«Ficámos para trás em relação à China. É preciso acelerar.»
Este diagnóstico tem até o seu texto fundador. Em setembro de 2024, Mario Draghi entregava à Comissão Europeia o seu relatório sobre o futuro da competitividade europeia. A sua prescrição: 800 mil milhões de euros de investimento adicional por ano, perto de 5 % do PIB da União, para «fechar o fosso». Caso contrário, advertia, a Europa estaria condenada a uma «lenta agonia».
Um ano depois, pouco mais de 10 % das suas recomendações tinham começado a ser aplicadas.
Mas esta estratégia pressupõe uma coisa:
que a China nos espere.
E ela não nos espera.
Enquanto a Europa debate, a China investe.
Enquanto a Europa regulamenta, a China constrói.
Enquanto a Europa hesita, a China já planeia a década seguinte.
Não é uma imagem: em março de 2026, Pequim lançou o seu décimo quinto plano quinquenal. Objetivo assumido — tornar-se a primeira superpotência tecnológica mundial.
Mas a verdadeira questão talvez não seja saber como alcançar a China. É saber se esta corrida ainda merece ser ganha.
Já não é apenas uma questão de competitividade. É uma questão de finalidade.
Sejamos justos: Draghi provavelmente tem razão… dentro do paradigma atual.
E é precisamente esse o problema.
Por outras palavras: o relatório Draghi é talvez o melhor diagnóstico possível… de um paradigma que chega ao fim.
2. Por que a China é provavelmente inalcançável
Não é uma questão de inteligência. Não é uma questão de trabalhadores mais eficientes.
É uma questão de estrutura.
A China dispõe de:
- uma visão industrial de longo prazo;
- uma política monetária ao serviço da sua estratégia;
- um planeamento a várias décadas;
- um imenso mercado interno;
- uma considerável capacidade de investimento público;
- um aparelho produtivo que já subiu de gama.
Os números dão a medida do fosso. A China assegura hoje cerca de 30 % da produção industrial mundial — o seu décimo sexto ano consecutivo no primeiro lugar. Os Estados Unidos representam 17 %, a Alemanha 5 %.
E nas tecnologias ditas «limpas» — painéis solares, baterias, turbinas eólicas, bombas de calor, eletrolisadores — a dominação é ainda mais esmagadora: a China concentra entre 60 % e 85 % das capacidades de produção mundiais. A Agência Internacional de Energia compara já este domínio ao da OPEP sobre o petróleo. Sem a China, o resto do mundo só pode satisfazer um quarto da procura mundial.
Seis anos de tarifas aduaneiras, sanções e controlos de exportação americanos não travaram esta trajetória.
Ela já não procura apenas produzir mais barato. Procura agora tornar-se a primeira potência tecnológica mundial.
Por outras palavras:
ela já está a jogar a partida seguinte.
A verdadeira armadilha não é, pois, ser distanciado pela China. É acreditar que a vitória ainda consiste em parecer-se com ela.
3. O verdadeiro problema: ainda jogamos o jogo do século XX
Toda a competição mundial continua organizada em torno da mesma obsessão:
- produzir mais;
- exportar mais;
- crescer mais depressa;
- ganhar quotas de mercado.
Mas esta lógica pertence ao século da abundância energética.
Entramos agora num mundo de limites:
- limites climáticos;
- limites minerais;
- limites energéticos;
- limites hídricos;
- limites biológicos.
E esta corrida tem um custo que ninguém inscreve nos balanços.
Cada ponto de PIB ganho nesta competição é uma retirada de reservas que não se reconstituem: minérios, energia, solos, água, seres vivos. Os dois competidores enfrentam-se gastando um capital que não pertence a nenhum dos dois.
A ironia é total: até a «transição verde», conduzida como uma corrida, é uma aceleração da extração. A procura europeia de lítio poderá ser multiplicada por 21 até 2050. A OCDE prevê um aumento de 150 % da utilização mundial de metais até 2060. E a Europa depende a 100 % da China para as suas terras raras pesadas refinadas: quanto mais acelera no terreno chinês, mais se afunda na dependência que pretende combater.
O próprio vencedor queima-se neste jogo. O sobreinvestimento chinês — 42 % do PIB, contra 23 % em média na OCDE — gera crises de sobreprodução em série: painéis solares, aço, alumínio, automóvel. Montanhas de matéria e energia dissipadas para produtos vendidos ao desbarato ou destruídos. Os próprios industriais chineses do solar falam de um «ciclo da morte», com preços que mal cobrem os custos de produção.
Falamos sem cessar de competitividade. Mas competitividade em relação a quê? A um planeta que não negoceia? A recursos que não votam? A limites físicos que ignoram as classificações do PIB?
Continuamos a raciocinar como se a riqueza consistisse unicamente em produzir mais, quando o verdadeiro fator limitante passa a ser a capacidade dos ecossistemas de absorver essa produção.
A China não ganha esta corrida. Ganha-a contabilisticamente. O custo real, esse, é transferido para o único ator que não se senta em nenhuma mesa de negociação.
Nem Bruxelas nem Pequim pagam o preço da partida.
O planeta é o pagador de primeira instância.
E esta externalização não é um acidente moral. Está inscrita na própria arquitetura monetária. A moeda de crédito exige um reembolso em fluxos monetários, nunca em fluxos biosféricos. A dívida financeira é exigível; a dívida ecológica não o é. O sistema de medição que arbitra a competição — PIB, quotas de mercado, balança comercial — só conta a extração como riqueza, e nunca a regeneração.
A Europa não perde porque joga mal. Perde porque tenta ganhar uma competição cuja vitória acelera precisamente aquilo que ameaça a sua prosperidade futura.
A questão já não é, pois:
Quem produzirá mais?
A questão passa a ser:
Quem saberá manter de forma duradoura o melhor nível de prosperidade com o mínimo de recursos?
4. O jogo de soma nula que toda a gente quer ganhar
É preciso determo-nos um instante no instrumento de medida desta competição: a balança comercial.
Porque ela assenta num absurdo aritmético que ninguém questiona.
A soma das balanças comerciais mundiais é nula, por construção. Todo o excedente é o défice de outro. Um mundo em que cada país visa o excedente é um mundo que persegue uma impossibilidade contabilística.
É o concurso da fila de espera: cada um se põe em bicos de pés. Ninguém vê melhor. Todos têm dores nas pernas.
E mesmo «ganha», a partida nunca termina. Um excedente não é um dado adquirido: é uma posição a defender permanentemente — pela compressão dos salários, pela subvalorização da moeda, pela sobreprodução subsidiada. A China é o caso de escola: um consumo das famílias limitado a 40 % do PIB, uma poupança forçada que compensa a insuficiência das reformas, um aparelho exportador alimentado em detrimento do nível de vida. A Alemanha conta a mesma história em versão europeia.
A competição pela balança comercial é uma máquina de transferir o rendimento das famílias para o aparelho exportador — tanto no «vencedor» como no vencido.
E o seu equilíbrio duradouro é uma ilusão. O país excedentário acumula créditos financeiros sobre os deficitários. Esses créditos só poderão ser honrados se os deficitários exportarem por sua vez — isto é, se o excedentário renunciar ao seu excedente. O sistema só se «reembolsa» acelerando sem fim os fluxos físicos: mais frete, mais extração, mais dissipação.
O mais notável é que a própria ortodoxia o sabia.
Em Bretton Woods, em 1944, John Maynard Keynes propunha uma câmara de compensação internacional — a International Clearing Union e a sua moeda, o bancor — que penalizava simetricamente os excedentes e os défices excessivos. Keynes tinha compreendido que a corrida aos excedentes era desestabilizadora por construção. A sua proposta foi afastada pelos Estados Unidos, então excedentários.
Por outras palavras: as regras atuais do jogo não foram escolhidas por serem racionais. Foram impostas pelo vencedor do momento.
É precisamente este estaleiro que o NES (NEMO Exchange Standard) retoma: uma arquitetura de equilíbrio das trocas internacionais que penaliza simetricamente os desequilíbrios — como queria Keynes — e que integra o que 1944 ignorava: o custo biosférico dos fluxos. O bancor corrigia os desequilíbrios contabilísticos. O NES corrige os desequilíbrios contabilísticos e ecológicos.
Porque a verdadeira mudança de paradigma não consiste em jogar melhor a mesma partida. Consiste em mudar a própria função objetivo. Há dois séculos que as economias otimizam o crescimento. O século XXI exigirá otimizar a robustez.
Esta ideia não é nova na história das ciências. Como mostrou Thomas Kuhn, os paradigmas não desaparecem por se tornarem ligeiramente menos eficazes. São substituídos quando as anomalias que produzem se tornam demasiado numerosas para serem ignoradas.
A economia parece hoje aproximar-se desse momento. As crises climática, energética, geopolítica e social talvez não sejam acidentes sucessivos. Poderiam ser os sintomas de um paradigma que se tornou incapaz de integrar os limites físicos da biosfera.
Mudar de paradigma não é, pois, uma escolha ideológica. É talvez simplesmente a próxima etapa da evolução do pensamento económico.
5. A verdadeira inovação consiste em mudar de paradigma
Na história, as grandes potências nem sempre ganharam jogando melhor.
Muitas vezes ganharam mudando completamente as regras.
A Europa possui precisamente uma vantagem única.
É a primeira região do mundo confrontada simultaneamente:
- com o envelhecimento demográfico;
- com a restrição climática;
- com a escassez energética;
- com uma forte exigência democrática.
Por outras palavras:
é o laboratório natural de um novo modelo económico.
Precisemos, porque a objeção virá: mudar de paradigma não é renunciar à indústria. É uma indústria orientada de outro modo — sobriedade material, reparabilidade, circularidade, relocalização das funções vitais. Não é produzir menos por derrota; é produzir o justo, por lucidez.
Em vez de procurar vencer a China no terreno do crescimento industrial, a Europa poderia tornar-se a primeira potência mundial da robustez.
A robustez não é a capacidade de crescer mais depressa do que os outros. É a capacidade de continuar a prosperar quando as condições se tornam desfavoráveis.
6. A verdadeira vantagem competitiva do século XXI
Num mundo sujeito aos limites planetários, a riqueza já não será apenas a capacidade de produzir.
Será a capacidade de durar.
As nações mais prósperas serão as que souberem:
- preservar os seus ecossistemas;
- reduzir a sua dependência dos recursos escassos;
- manter uma forte coesão social;
- orientar a moeda para a regeneração em vez da extração.
Por outras palavras, a verdadeira competição de amanhã já não será uma competição de potência.
Será uma competição de robustez.
E é precisamente esta mudança de paradigma que o NEMO IMS propõe, em dois níveis complementares:
No interior: fazer da moeda já não um acelerador do crescimento material, mas um instrumento de resiliência ecológica, social e económica — uma moeda cuja criação recompensa a regeneração em vez da extração.
No exterior: o NES, um padrão de troca internacional que substitui a absurda corrida aos excedentes por um equilíbrio dos fluxos que integra o seu custo biosférico.
Mudar as regras do jogo é, antes de mais, mudar aquilo que a moeda conta.
Conclusão
O século XX recompensava as economias capazes de produzir sempre mais.
O século XXI recompensará as que souberem prosperar de forma duradoura num mundo finito.
Se a China se tornou inalcançável no antigo paradigma, a resposta talvez não seja correr mais depressa. Correr mais depressa é extrair mais depressa, dissipar mais depressa e apresentar a fatura ao único pagador que não pode recusar.
A resposta é talvez muito mais ambiciosa: inventar o próximo paradigma económico.
Durante dois séculos, o poder mediu-se pela capacidade de extrair mais do que os outros.
O século XXI medirá o poder pela capacidade de preservar aquilo de que depende a prosperidade de todos.
As civilizações não se tornam dominantes porque ganham todas as competições. Tornam-se dominantes quando inventam as regras da competição seguinte.
Jean-Christophe Duval